sábado, 30 de maio de 2009

Homenagem aos Irons!


Hoje venho aqui não pra contar uma história minha. Estou aqui pra repassar a todos vocês leitores deste blog um relato especial.


Esta semana que passou, me dediquei a escrever uma nova coluna no DC, Diário Catarinense. Desta vez o assunto foi o Ironman, que vai ser realizado neste domingo, dia 31. Como resultado das colunas recebi de um leitor, um e-mail especial, com um relato também especial.


O leitor Wanderley Horn Hulse, atleta também, que já completou TRÊS vezes o Ironman, me presenteou com este texto emocionante que tenho enorme satisfação de colocar aqui.


É uma homenagem a todos os Irons, que vão fazer a prova neste domingo. Ao meu co-blogueiro, amigo-irmão Marcos também. Acompanhem:



Eu acreditei, eu voltei, enfim, eu consegui.Bem, todos os amigos e familiares sabiam da imensa necessidade pessoal que eu tinha em terminar a prova do último dia 25 de maio (Ironman 2008), de preferência de bem com a cabeça e a saúde. Depois dos dois primeiros Irons (2004 para 12 horas e 44 minutos e 2005 para 12 horas e 30 minutos), da interrupção nos treinos devido a trombose nas minhas pernas (final de 2005), do difícil retorno, enfim chegou o grande dia.

A natação foi muito boa, saímos, eu o Tiago juntos e assim fomos até por volta de uns 500 m. Foi então que eu levei uma leve porrada que deixou o meu óculos no meio da testa. E agora, se parar para arrumar, alguém me atropela. Nadei mais um pouco até conseguir um espaço para, bem rápido, arrumá-los e poder seguir em frente. Quando cheguei na praia, olhei no relógio (1 hora e 20 minutos) e já saí xingando: "que merda, treino pra caramba, nado e não consigo melhorar o meu tempo".


Ao chegar na tenda de troca vi o Diego, logo após o Tiago, comecei a ver que já não tinha nadado tão mal assim. Depois, conversando com a galera, cheguei a conclusão que a minha natação foi muito boa. Fiquei bem contente, afinal a corrente estava bem forte e o tempo de todos foi bem alto, parecia ter uns 4.000 m.

Logo no começo do pedal o Tiago já saiu que nem doido e foi-se embora. Parecia um coiote ligeiro, eu diria um Papaléguas. Logo no início, no valão, caiu minha sacola com as comidas, tive que parar e sair catando no meio da rua. Tudo tranquilo. Foi então que encontrei o Dieguito e fomos revezando e pedalando praticamente juntos até por volta do Km 45. Lá perto do Floripa, passou a Vanuza, minha primeira treinadora de Triathlon.


Fiquei mais contente ainda com a minha natação, afinal sempre nadei pior do que ela. Aos poucos acabei ficando para trás. Estava preocupado em me poupar para a corrida. Afinal não havia treinado tanto assim os longos e o final da maratona poderia ser muito difícil. O calor começava a apertar. A cada retorno olhava e observava o nosso nobre Éder, parecia um cachorro louco, pedalando pra caramba. encontrei o Mano com a bike quebrada lá perto do morro do Jardim da Paz, coitado, deu pena, não tinha como ajudá-lo.

Nos 90 Km, parei, saí da bike, fiz um breve lanche, conversei rapidamente com a família e amigos, recebi uns empurrões e saí em disparada para completar os outros 90 Km. Esses sim, foram bem sofridos. Cruzei com o Daniel Tatoo, parado, perto do Armazém Vieira, esperando chegar uma ajuda, já que a sua bike estava com o pneu furado. Enfim, parecia que não acabava nunca, não achava uma posição legal no clip que me deixasse mais a vontade. Fiz essa última parte praticamente sentado, sem o apoio do clip. Tudo bem, estava bem tranquilo, como escrevi no começo, queria mesmo era terminar. Passei por alguns atletas e fui passado por muitos, enfim, faz parte.

Quando comecei a corrida, olhei no relógio e era exatamente 2 horas e 45 minutos da tarde. Lá estavam novamente meus amigos e minha família para me empurrar. Comecei, bem devagar, 6 min/Km de média para ver se minhas pernas iam se acostumando aos poucos. A companhia da minha filha Renatta, que, de bicicleta ia conversando comigo e passando alguns suplementos de comida e bebida, me ajudou muito.


O coração começava a bater mais forte. Saindo de Jurerê, após levar algumas ameaças dos fiscais, ela foi embora para o pórtico e me deixou seguir sozinho para o fim do mundo, ou melhor, rumo aos morros de Canajurê. E lá se foi a média para uns 7 min/Km. Até chegar em Canasvieiras, por volta do Km 15, estava tudo bem demais. A média bem baixa, cerca de 6 min/Km, para conseguir chegar inteiro ao pórtico. Já na volta, lá perto dos morros, começaram a doer minhas panturrilhas, principalmente a esquerda. Acredito que, pelo fato de ter esquecido de ingerir sal com água e de estar muito quente, acabei ficando um pouco desidratado. Quando cheguei na Búzios, tive que fazer a primeira parada para alongar. A dor foi forte pra caralho.


Comecei a jogar água gelada nas pernas para ver se a dor amenizava. Os calos começaram a aparecer. Ao completar os 21 Km, olhei no relógio e vi que faltavam pouco mais de 2 horas para 12 horas de prova. Cruzei novamente pela minha família, lá também estavam o Gustavo, a Cida, a Gabriela, Reinaldinho, Sabrina, a Fê e o Fi, prá variar dando uma forcinha. E eles nem imaginam o quanto é importante para a gente esse apoio. Cada grito, cada empurrão, cada rosto conhecido que cruzamos nos dá um pouco mais de força para prosseguir, para não desistir nunca. Afinal esse é o nosso lema.

Pela primeira vez na prova, fiz uns rápidos cálculos e vi que poderia chegar abaixo de 12 horas. Abaixei minha cabeça, me concentrei de vez e fui embora. Esperava pela companhia da minha outra filha, Flavinha, para dar aquele empurrão que me faltava nessa última parte. Não deu, tinha muito movimento de carros e pessoas e os fiscais estavam pegando muito pesado com o pacing.De novo na Búzios, por volta do Km 28, puta que o pariu, começaram as cãimbras de novo. Dessa vez bem mais forte.


Vocês não imaginam o sofrimento que eu tive por causa das cãimbras. Realmente foram muito fortes. Tive que parar novamente, alongar, fechar a cara, segurar nos dentes a dor e tocar o barco, ou melhor, as pernas. Só mesmo com a força interior que eu estava naquele dia para suportar. Nada, mas nada mesmo, poderia me fazer parar. Engraçado, eu estava com medo dos meus tendões ou da minha coxa, e nada. Nem notei que eles existiam. O que acabou incomodando foram minhas enormes panturras. Ao chegar novamente ao pórtico, agora no Km 31, olhei novamente no relógio e vi que tinha feito dentro de 1 hora os últimos 10,5 Km.


Conclusão: faltavam mais 60 minutos para completar a última perna. Eram pouco mais de 60 minutos para completar os últimos e tão sofridos 10,5 Km. Abaixei ainda mais a cabeça, recebi uma força enorme da família e dos amigos e falei com a voz firme para minhas filhas: "Faltando 5 minutos para as 7 eu estarei chegando. Quero ver vocês lá. Preciso entrar no pórtico com vocês."


Lá pelo Km 35, próximo da subida leve de Jurerê, um pouco antes de entrar para a Dourados, bem na parte mais escura e sombria da prova, totalmente sozinho, lembrei dos acontecimentos ocorridos comigo em função da trombose que tive nas duas pernas em 2006, lembrei da minha família, dos longos treinos com os amigos, das dores que não me largaram praticamente em nenhum treino longo, dos dias com frio e chuva nos treinos e comecei a chorar. Parecia uma criança, as lágrimas corriam sem parar. Foi difícil, tive que me segurar muito para não me desconcentrar e acabar caminhando.


Eu sabia, se tivesse que caminhar, minha musculatura iria contrair de vez e talvez não conseguisse chegar ao final. Dessa vez levantei a cabeça mais ainda, olhei bem firme para frente e segui. Faltava pouco, muito pouco. Ao entrar na Búzios novamente, perto do Km 39, senti uma enorme ansiedade: “Meu Deus, esse pórtico que não chega nunca.” Continuei, firme com uma pedra. A cada Km olhava no relógio, a média continuava 6 min/Km. Ao chegar no Km 41, olhei pela última vez no relógio e vi que faltavam pouco mais de 8 minutos para as 12 horas de prova, pensei: "Agora eu chego, nem que seja de joelhos, engatinhando, me arrastando".


Quando entrei no tapete, olhei para a frente, vi minhas filhas me esperando, foi um misto de vontade de gritar, chorar, sorrir, realmente uma emoção indescritível. Momentos na vida da gente para não esquecer jamais. Tanto que hoje, depois de 2 semanas, todos os momentos estão muito claros na minha memória. Finalmente cheguei: 11 horas e 58 minutos. Firme, nem tão forte assim.


Tive que me jogar no chão de tantas cãimbras, muitas dores, calafrios, fome, nem lembro de tudo que senti. Após algumas ajudas dos staffs, aos pouco fui melhorando. Lembro, após cruzar o pórtico e de receber ajuda para me levantar, de ter encontrado de cara com o Tiago e de ter caído no choro novamente. Cumprimentei meu irmão e meus sobrinhos. Logo depois encontrei minha esposa, Laíris, minhas filhas e o Gustavo. Passou outro filme na minha cabeça e novamente foi um choro só. Estava difícil de segurar a emoção.

Nesses momentos de superação é que realmente percebemos o quanto são importantes os amigos e a família. Sem eles não somos nada. Nesse final, pedindo desculpas pelo atraso do meu relato, agradeço o apoio de todos, tanto durante como antes da prova. Em especial a minha família que esteve em todos os momentos comigo, seja nas minhas ausências ou no dia da prova, desde às 4 horas da manhã, sem um descanso, até o anoitecer. Também precisa ser Iron, convenhamos não é fácil.


Aos amigos Éder, Tiago e Diego, membros efetivos e remidos da TOPE, um abraço especial e um agradecimento pelos longos momentos juntos nos treinos. Ao treinador e professor, Roberto Lemos, outro agradecimento especial, pela paciência em aturar os furos e faltas nos treinos e pelos ensinamentos tão necessários e especiais para alcançarmos as metas planejadas.


No ano que vem devo ficar na folga, ou seja, só participarei de provas mais curtas (maratonas e meio iron). Afinal, o corpo e a mente precisam descansar um pouco, e a família precisa um pouco mais da minha presença. Nunca podemos nos esquecer: “o segredo é saber manter o equilíbrio de todos os lados: família, trabalho, esporte e lazer.”

Obrigado por tudo.A vida segue.

Wanderley Horn Hülse
Equipe Ironmind

2 comentários:

Fernando disse...

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Rodrigo Faraco disse...

Impressionante, mas cada vez que leio esse texto eu caio no choro. E olha que eu jah li uma dezena de vezes. Abraços Wanderley